41 - Perante nós mesmo devemos prestar contas para demonstrar que nascemos para a independência e para o comando. E devemos fazê-lo em tempo. A essas provas não devemos fugir, conquanto sejam talvez o jogo mais perigoso que se pode jogar e embora sejam apenas provas de que somos únicas testemunhas e de que mais ninguém é juiz. Para não se ficar preso a uma pessoa, mesmo que seja a mais amada, pois toda pessoa é uma prisão e também um recanto. Jamais ficar preso a uma pátria, mesmo que se trate da mais sofredora e da mais carente de ajuda. Pois é mais fácil desligar o coração de uma pátria vitoriosa. Não se ficar preso a um sentimento de piedade, mesmo que ele se dirija a homens superiores, cujo martírio e desamparo o acaso nos deixou observar. Não se ficar preso a uma ciência, por mais sedutora que se nos apresente, com achados preciosos que parecem reservados precisamente para nós. Não se ficar preso ao próprio desprendimento, a essa distância e alheamento voluptuosos da ave que foge sempre mais alto, para poder vislumbrar sob si um panorama cada vez maior. Cuidado com perigo do que voa. Não se ficar preso às próprias virtudes e ser vítima, por completo, de uma das nossas singularidades, como da nossa "hospitalidade". Assim é o perigo dos perigos nas almas nobres e ricas que se dissipam com prodigalidade e quase com indiferença, e desenvolvem até ao vício a virtude da liberalidade. Necessário é saber reservar-se. A prova mais forte da independência é exatamente esta.
Para Além do Bem e do Mal, prelúdio a uma filosofia do futuro
Friedrich Nietzsche
