quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Éramos nós

Éramos dois, depois três, quatro.
Depois dois de novo; e assim, quando me dei conta, éramos um. Mas não no sentido de sermos um só, estava mais pra cada um por si e nenhum pelo outro.
Me deixava louca por saber que não estava mais onde a pouco eu reinava, como num salão: beijava-me a mão, e éramos dois a rodar. Como sempre fizemos.
Me acendia a vida como ninguém mais fez.
Dizem que a vida é assim, tem gente que marca feito tatuagem e não sai nunca mais.



Éramos nós dessa vez.


Sempre tem gente pra chamar de nós
Sejam milhares, centenas ou dois
Ficam no tempo os torneios da voz
Não foi só ontem, é hoje e depois
São momentos lá dentro de nós
São outros ventos que vêm do pulmão
E ganham cores na altura da voz
E os que viverem verão.
(por que nós? - Marcelo Jeneci)

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Cafés

Pouco antes de fazer aquele dramalhão como sempre fazia, ela me olhou nos olhos e disse que me amava - usando aquele tom gracioso e delicado que tanto me conquistava.
Me escreveu poesias sinceras que estão guardadas naquela caixa largada no canto da antiga casa. Poesias do fundo da alma, e depois de me fazer lê-las na sua frente, me jurou eterna lealdade.
Depois a gente se entendia por aí. Assim, meio inconsequente e irresponsável.
Foi tudo acontecendo às escondidas, e o arrepio bem que nos motivava.
Provamos quase todos os cafés da cidade. Em um deles, fez caras e bocas, e me disse coisas belas sem o menor pudor do olho no olho que a maioria das pessoas insiste em ter - bem sei que ela não ficava encabulada, apesar de tanto fazer que sim.
Foi tudo tão rápido.
Quando me dei por mim ela já me dizia adeus com um abraço apertado, dizendo que ia pra fora do país.
Depois de alguns anos a gente até se trombou uma vez, mas estávamos com pressa naquele dia e isso acabou virando um contratempo e uma desculpa pra outro café - que não aconteceu, por sinal.
De qualquer forma, diferente das outras, aquela pequena tinha um brilho no olho que me encantou muito, sabe-se lá porquê, e uma coisa assim, meio de luar, que me fazia pensar: "Mas que inferno, como são complicadas essas garotas."

terça-feira, 8 de novembro de 2011

à boa vizinhança, brindemos!

Subi as escadas, assim bem depressa como de costume. Peguei as roupas na máquina e lá pus-me a estendê-las no varal. O lado ruim de casa geminada, é a desgraça de uma varanda grudada na outra. A privacidade acaba virando uma abelha enganada que vem me perturbar os ouvidos por conta do aroma do amaciante que a vizinha usa nas roupas - será que ela acredita mesmo no rótulo que diz que as roupas ficam com cheiro de flor?
Desço um lance de escada e subo um único degrau do tamanho de três - e é incrível como vinte anos depois eu ainda penso: "Puta imbecil o arquiteto que planejou essa casa."
Olho para a esquerda. Nada. Pego a primeira calça para estender no varal. Nada.
Olho para a esquerda... E lá está ela. A vizinha que sempre aparece quando eu resolvo colocar o nariz pra fora do telhado. É incrível como ela tem esse radar, esse sensor; quase uma sensibilidade do além pra vida alheia.
Aqueles cabelos louros e crespos, olhos cansados de dona-de-casa, um amarelo pálido na pele despida de qualquer bonzeado que possa conseguir, canelas finas e cintura pra lá de grossa.
Também com seu cesto de roupas molhadas pra colocar no Sol, me olha no rosto e diz:
- Oi!!! - com um sorriso cinza, torto e podre, quase desdentado. Seu sorriso é o seu gran-finalle, impressionantemente feio.
- Oi - respondi meio sem jeito, envergonhada do seu sorriso.
Uma calça jeans, duas camisetas coloridas, um pijama cor-de-rosa , três camisas xadrez - azul, verde e marrom -, dois vestidos floridos, outras cinco camisetas estampadas e mais três calças jeans.
Não que ela não seja boa gente, mas exceto por sua péssima aparência, só conheço mesmo seus cochichos com a vizinha de baixo e as músicas daquela rádio gospel insuportável que escuta no último volume. Sei também que grita pelas pessoas na rua, odeio gente que sai gritanto por aí.
Um lençol de cama azul e duas fronhas listradas em azul dégradé.
E ela lá, estendendo as roupas encardidas do marido caminhoneiro, com um olho no cesto e o outro em mim.
"Pronto, agora só falta essa camiseta e estou livre dela."
- Nossa! Haja roupa, hein?! - Ela disse em alto e bom som. Em uma tentativa frustrada de puxar assunto com a jovem mãe de vinte anos. "Sou mãe, ela também. Estou estendendo roupas, ela também. Poxa vida, como temos coisas em comum!", ela deve ter pensado.
- Pois é. A gente lava, lava e não acaba nunca. - Respondi educadamente pra não ser motivo de mais uma conversa com a vizinha de baixo.
- Nunca! Não acaba nunca! - Ela tentou dar continuidade na conversa falida, na esperança de que eu fosse desenvolver um diálogo de verdade.
E assim, meio à francesa, fui saindo da varanda, como quem simplesmente terminou de estender as roupas. Dez minutos depois eu a vi no portão conversando com a tal da vizinha de baixo.
Vizinhos são o karma da classe média baixa ascendendo pra sociedade.
Como diria o velho mal-humorado, é infernal.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

pra sempre ser

Antes não fosse certo, do que tarde fosse errado (o contrário talvez).
Antes tudo fosse como era, e sabemos que era.
Era antecipação e contentação. Simples e nada a por nem tirar.
Antes fosse como antes era, e depois deixou de ser (pra voltar, enfim).
Auto-afirmação.
Pés no chão.
- Tem mais valia uma Flávia com os pés no chão, do que mil Flávias voando por aí.
O batom vermelho carmim nunca chega ao fim, é incrível.
Trocar as palavras, as vontades, os anseios.
E as mãos ainda suam de ansiedade.
Meu bem, não tem jeito.
Tinha que ser assim, pra nunca deixar de ser, afinal.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Devaneio

Esse céu cinza chega a dar uma dor de estômago deveras merecida de tanto passado que carrega.
Saudade mesmo das épocas em que as maiores preocupações eram as notas de química e física.
Sempre fui irremediável com cálculos e essas bobagens. Até hoje não apliquei uma fórmula sequer na vida real - e é óbvio que dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar ao mesmo tempo; só um alienado duvidaria disso.
Números não falam da alma; são frios e cheios de si.
Prefiro mais aquela sensação que a gente sente quando o âmago encontra o âmago e finalmente, declara alguma coisa sincera. Talvez isso justificasse a minha habilidade de enrolar os professores naquela época.
Época em que toda adolescente é um pouco manipulável e declara infelicidade por coisa pouca.
Mas voltando ao céu cinza... Bem.
Tanto faz.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

A Hora

Quando se olha no espelho, vê no fundo dos seus olhos um pouquinho do que sobrou dela mesma e então se encontra e vê que ainda existe. E, por incrível que pareça, o pouquinho que sobrou continua intacto. 
O único momento que é verdadeira é quando está sozinha mesmo, e sente uma saudade danada de tudo que passou.
Acho que no fim das contas Clarice tem razão: o futuro sempre é melhor, pois sua sorte é não ser o presente.
(Que história banal, mal consigo escrevê-la.)

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

insistência

Talvez seja essa coisa confusa e cuspida que motiva a minha insistência desse jeito,
Anos a fio.
Essa coisa de ameaçar ir, mas sempre voltar.
Voltar pro lugar que nunca deixei, afinal.
É.
"Essa coisa confusa não é tão cuspida assim."
Confesso.
Nunca foi.
Acho que o que faz ser é a vontade de querer. Talvez.
Certeza.
Se a tivesse, saberia?
Não sei.
Algumas coisas acontecem por uma razão. Outras, não.
A única coisa que não muda é essa sensação de empty space.
Nunca foi cuspido.
E eu não sei porque diabos eu continuo insistindo.
É, realmente.
"É essa coisa deveras confusa que me motiva, como sempre"
Concluo às cegas.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

questão

Sonhos sempre me surpreendem. Sério mesmo.
Hoje mesmo sonhei um sonho que poderia ser filme, ou livro, ou apenas uma variação da monotonia. Não sei. Quem sabe?
Uma igreja, pequena e branca. Algumas plantas nos cantos e uma pintura simples e refinada.
Três filas. Lá estavam dois padres velhos, e um jovem vestido de preto que tinha olhos azuis tão angelicais que no meio de uma conversão - sabe-se lá de quê - se revolta com o sistema em que vive e faz revelações secretas sobre tudo o que tem acontecido.
- Cuidado com o que diz, isso não vai terminar bem.
Ele apenas me responde com um olhar carinhoso.
É como se vivesse em um regime ditador, e, em um último suspiro - durante todo esse momento, sons de tambores enfurecidos são a trilha para o ponto -, revela o segredo da lavagem cerebral e então, ouve-se um grande "boom" e lá se vai o jovem de olhos bonitos.
Era o seu ponto final.
De repente, mas não tão de repente assim, começa uma fuga incessável em direção a uma praia onde acontece uma reunião dos refugiados. O sol poente faz uma paisagem desperdiçada pela tensão.
Estamos lá; e, novamente, de repente reaparecem pessoas que por mim já estão enterradas no meu passado a tempos, começando uma grande discussão.
- EU NUNCA MAIS QUERO TE VER!
E a fuga recomeça.
Sentinelas do sistema começam a nos perseguir e executar a sangue frio aleatoriamente pessoas que tanto fazem como tanto fizessem. E nós estamos correndo.
É como se nada no mundo importasse ou existisse mais.
Fugindo.
Um grande muro pintado de branco e um massacre do outro lado. Mãos entrelaçadas.
Fugindo.
- Por que você fez aquilo comigo? Não foi justo.
Fugindo.
De quê mesmo? De quem mesmo?
Não importa. A cumplicidade de dois fugitivos vale mais que mil perguntas.
Conseguimos.
Escapamos do triste fim que nos foi destinado.
Testemunhas de algo terrível acontecendo diante dos nossos narizes. No horizonte têm cinco homens de smoking armados nos dando adeus - uma chuva azul cai do céu e banha as ruas acimentadas.
Um profundo olhar olho no olho e - nesse momento o som dos tambores volta, criando um indiscutível clima de suspense -, é o fim.
Acordei com o som do despertador morrendo de vontade de voltar para o sonho e saber o verdadeiro final.

A propósito, qual o sentido disso tudo mesmo?
Nunca faz sentido.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

melancolia.

sábado, 10 de setembro de 2011

no satisfaction

Então o inverno está mesmo no fim.
Entre algumas músicas dos Stones me vem a vontade de escrever. Vai ver eu devia seguir os conselhos de alguns amigos e escrever mais.
Eu sempre fico pensando nos nomes das cores de esmalte.
Absinto, Picolé, Záz, Fitilho, Hippie Chic, Jasmim.
Alguém tem que inventar esses nomes. Alguém é pago pra isso.Vai ver é por isso sou um pouquinho Clementine.
Mas o que os Stones tem haver com isso? Nada, jovem. Os Stones não tem nada a ver com as cores dos esmaltes ou quem diabos os inventa.
Muitas coisas não fazem sentido. O ferrugem, a prática, a insistência, a perfeição e a bobagem disso tudo; mas ultimamente o que tem me prendido a atenção são os detalhes mesmo.
Vai ver é a ausência de emoção, ou coisa parecida.
O que resta mesmo é se atentar a cada pequeno detalhe e cada nome de esmalte que se destaca, em meio a tantos outros iguais.
O nome do esmalte interessa, tanto quanto não deixar a tampa da acetona aberta.
Porque ela evapora, e sem ela colega, não dá pra tirar qualquer cor insuportável da sua vida.
E de metáforas estúpidas a gente vai vivendo e vai levando.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

momentaneamente

Na minha opinião, fato óbvio é que a vida é feita de momentos e, sejam eles bons ou ruins, são esses momentos que definem a tênue linha do que fomos, somos e seremos.

Fato é também que muitos momentos da minha vida me marcam coisas na lembrança e querendo ou não, sou o que sou por conta desses curtos e singulares segundos.

Tendo uma companhia para rodar e rodar na valsa das novas experiências, indagações e contentações, por muitas vezes; ou até mesmo naquele último vagão da madrugada quase que totalmente vazio a não ser por esta que vos escreve, o bêbado dormindo no banco preferencial, duas garotas idiotas voltando de algum lugar insignificante e um fone de ouvido me poupando do mundo à minha volta que tocava nas alturas Imogen Heap e tornou deste um momento único em potencial na minha memória.

São momentos importantíssimos também que acontecem em minutos decisivos que mudam toda a rotação do nosso mundinho particular. Como por exemplo, aquele dia em que conheci o amor da minha vida e também fiz a minha escolha.

Escolhas. Tudo acontece a partir daí. O arrependimento é consequência da falta de experiência com toda essa coisa de escolher... Minha sorte mesmo é nunca ter provado o gostinho amargo desse tal arrependimento.

Voltando aos momentos... Me dei conta de que em alguns dias um dos momentos mais importantes da minha vida vai acontecer - é engraçado ter consciência deste, pois na maioria das vezes são espontâneos e nada premeditados -, e a troca de olhar com o ser mais puro do meu mundo com certeza vai me paralisar o coração e a memória.

Já a tal da ansiedade, não é algo que se discuta seriamente por aqui, uma vez em que as últimas semanas tem me trazido barras de chocolate e insônia, por conta da mesma.


É a vida, e sim... Ela é bonita e graças aos meus momentos únicos, hoje sei o que sou e só eu mesma pra conhecer minhas metas e troféus. Que venham mais momentos únicos e incríveis, pois a vida está só começando.

sexta-feira, 25 de março de 2011

E se a vida é amarga, o pouco doce que me diz já me faz alguém feliz.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

repentinamente

Foi assim: eu simplesmente senti que a ponte não existia mais. É como se o mundo do outro lado tivesse virado pó, virando as costas para mim e o ser que abrigo.
Quem sabe foi pó que virou mesmo toda essa estupidez de os outros pra lá, os outros pra cá e vice-versa. Quem sabe se não fui eu mesma que queimei tudo? Só quero que tudo recomece - mas parece que quanto mais você anseia mudança, mais lenta ela acontece.
Parece que tudo está distante - o suficiente pra me fazer desistir e demasiado complicado de fazer valer.
Um sorriso, por exemplo, agora está a três vidas e pouco de se concluir.
Repentinamente eu convictamente sinto que tudo é uma mentira bem grande inventada por alguém que não tinha o que fazer, a não ser se divertir com a desgraça dos outros. É bem aquela coisa de solidão que eu sempre temi.
Mas librianos são assim mesmo... Nunca têm certeza de nada e desconfiam da própria sombra.
Preciso de paz, de sossego, de segurança.
Segurança talvez seja o problema. Num dia você tem, no outro você não sabe - uma semana depois se torna como encontrar uma agulha no palheiro, entende?
Repentinamente assim a convicção já se foi.
Redundância. Contrariedade. Incertezas. Insegurança.
O que fazer quando de repente, tudo ao seu redor sumiu e você têm a companhia de alguém que já não sabe mais quem? Um dia eu descubro e conto ao mundo.
Até lá, vivo de momentos e segundos que alteram toda a ordem dos fatos, que, poderiam apenas ser diferentes se dependessem não só de mim.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

é um mito

É mais que uma música repetida de anos atrás, ou uma lembrança de algo que se perdeu no fio do tempo faz tempo.
É bem mais do que qualquer texto ou conto que valha a paciência dedicada e minuciosamente vivenciada.
É realmente algo que não se compare a uma sexta-feira intensa e descontrolada sem a menor preocupação.
Hoje eu vejo que toda Bossa é Nova e eu não dou mesmo a mínima se é usada - e pra quê debater a razão do nome da rosa ser rosa?
A inquietação me leva a crer que é tudo real e a influência já não pode mais ser sofrida; as coisas são como elas são e acontecem exatamente como devem acontecer. Quem sabe se não é esse mesmo o meu destino?
Agora tudo o que eu posso fazer é esperar o verão acabar.