Subi as escadas, assim bem depressa como de costume. Peguei as roupas na máquina e lá pus-me a estendê-las no varal. O lado ruim de casa geminada, é a desgraça de uma varanda grudada na outra. A privacidade acaba virando uma abelha enganada que vem me perturbar os ouvidos por conta do aroma do amaciante que a vizinha usa nas roupas - será que ela acredita mesmo no rótulo que diz que as roupas ficam com cheiro de flor?
Desço um lance de escada e subo um único degrau do tamanho de três - e é incrível como vinte anos depois eu ainda penso: "Puta imbecil o arquiteto que planejou essa casa."
Olho para a esquerda. Nada. Pego a primeira calça para estender no varal. Nada.
Olho para a esquerda... E lá está ela. A vizinha que sempre aparece quando eu resolvo colocar o nariz pra fora do telhado. É incrível como ela tem esse radar, esse sensor; quase uma sensibilidade do além pra vida alheia.
Aqueles cabelos louros e crespos, olhos cansados de dona-de-casa, um amarelo pálido na pele despida de qualquer bonzeado que possa conseguir, canelas finas e cintura pra lá de grossa.
Também com seu cesto de roupas molhadas pra colocar no Sol, me olha no rosto e diz:
- Oi!!! - com um sorriso cinza, torto e podre, quase desdentado. Seu sorriso é o seu gran-finalle, impressionantemente feio.
- Oi - respondi meio sem jeito, envergonhada do seu sorriso.
Uma calça jeans, duas camisetas coloridas, um pijama cor-de-rosa , três camisas xadrez - azul, verde e marrom -, dois vestidos floridos, outras cinco camisetas estampadas e mais três calças jeans.
Não que ela não seja boa gente, mas exceto por sua péssima aparência, só conheço mesmo seus cochichos com a vizinha de baixo e as músicas daquela rádio gospel insuportável que escuta no último volume. Sei também que grita pelas pessoas na rua, odeio gente que sai gritanto por aí.
Um lençol de cama azul e duas fronhas listradas em azul dégradé.
E ela lá, estendendo as roupas encardidas do marido caminhoneiro, com um olho no cesto e o outro em mim.
"Pronto, agora só falta essa camiseta e estou livre dela."
- Nossa! Haja roupa, hein?! - Ela disse em alto e bom som. Em uma tentativa frustrada de puxar assunto com a jovem mãe de vinte anos. "Sou mãe, ela também. Estou estendendo roupas, ela também. Poxa vida, como temos coisas em comum!", ela deve ter pensado.
- Pois é. A gente lava, lava e não acaba nunca. - Respondi educadamente pra não ser motivo de mais uma conversa com a vizinha de baixo.
- Nunca! Não acaba nunca! - Ela tentou dar continuidade na conversa falida, na esperança de que eu fosse desenvolver um diálogo de verdade.
E assim, meio à francesa, fui saindo da varanda, como quem simplesmente terminou de estender as roupas. Dez minutos depois eu a vi no portão conversando com a tal da vizinha de baixo.
Vizinhos são o karma da classe média baixa ascendendo pra sociedade.
Como diria o velho mal-humorado, é infernal.