quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Cafés

Pouco antes de fazer aquele dramalhão como sempre fazia, ela me olhou nos olhos e disse que me amava - usando aquele tom gracioso e delicado que tanto me conquistava.
Me escreveu poesias sinceras que estão guardadas naquela caixa largada no canto da antiga casa. Poesias do fundo da alma, e depois de me fazer lê-las na sua frente, me jurou eterna lealdade.
Depois a gente se entendia por aí. Assim, meio inconsequente e irresponsável.
Foi tudo acontecendo às escondidas, e o arrepio bem que nos motivava.
Provamos quase todos os cafés da cidade. Em um deles, fez caras e bocas, e me disse coisas belas sem o menor pudor do olho no olho que a maioria das pessoas insiste em ter - bem sei que ela não ficava encabulada, apesar de tanto fazer que sim.
Foi tudo tão rápido.
Quando me dei por mim ela já me dizia adeus com um abraço apertado, dizendo que ia pra fora do país.
Depois de alguns anos a gente até se trombou uma vez, mas estávamos com pressa naquele dia e isso acabou virando um contratempo e uma desculpa pra outro café - que não aconteceu, por sinal.
De qualquer forma, diferente das outras, aquela pequena tinha um brilho no olho que me encantou muito, sabe-se lá porquê, e uma coisa assim, meio de luar, que me fazia pensar: "Mas que inferno, como são complicadas essas garotas."

terça-feira, 8 de novembro de 2011

à boa vizinhança, brindemos!

Subi as escadas, assim bem depressa como de costume. Peguei as roupas na máquina e lá pus-me a estendê-las no varal. O lado ruim de casa geminada, é a desgraça de uma varanda grudada na outra. A privacidade acaba virando uma abelha enganada que vem me perturbar os ouvidos por conta do aroma do amaciante que a vizinha usa nas roupas - será que ela acredita mesmo no rótulo que diz que as roupas ficam com cheiro de flor?
Desço um lance de escada e subo um único degrau do tamanho de três - e é incrível como vinte anos depois eu ainda penso: "Puta imbecil o arquiteto que planejou essa casa."
Olho para a esquerda. Nada. Pego a primeira calça para estender no varal. Nada.
Olho para a esquerda... E lá está ela. A vizinha que sempre aparece quando eu resolvo colocar o nariz pra fora do telhado. É incrível como ela tem esse radar, esse sensor; quase uma sensibilidade do além pra vida alheia.
Aqueles cabelos louros e crespos, olhos cansados de dona-de-casa, um amarelo pálido na pele despida de qualquer bonzeado que possa conseguir, canelas finas e cintura pra lá de grossa.
Também com seu cesto de roupas molhadas pra colocar no Sol, me olha no rosto e diz:
- Oi!!! - com um sorriso cinza, torto e podre, quase desdentado. Seu sorriso é o seu gran-finalle, impressionantemente feio.
- Oi - respondi meio sem jeito, envergonhada do seu sorriso.
Uma calça jeans, duas camisetas coloridas, um pijama cor-de-rosa , três camisas xadrez - azul, verde e marrom -, dois vestidos floridos, outras cinco camisetas estampadas e mais três calças jeans.
Não que ela não seja boa gente, mas exceto por sua péssima aparência, só conheço mesmo seus cochichos com a vizinha de baixo e as músicas daquela rádio gospel insuportável que escuta no último volume. Sei também que grita pelas pessoas na rua, odeio gente que sai gritanto por aí.
Um lençol de cama azul e duas fronhas listradas em azul dégradé.
E ela lá, estendendo as roupas encardidas do marido caminhoneiro, com um olho no cesto e o outro em mim.
"Pronto, agora só falta essa camiseta e estou livre dela."
- Nossa! Haja roupa, hein?! - Ela disse em alto e bom som. Em uma tentativa frustrada de puxar assunto com a jovem mãe de vinte anos. "Sou mãe, ela também. Estou estendendo roupas, ela também. Poxa vida, como temos coisas em comum!", ela deve ter pensado.
- Pois é. A gente lava, lava e não acaba nunca. - Respondi educadamente pra não ser motivo de mais uma conversa com a vizinha de baixo.
- Nunca! Não acaba nunca! - Ela tentou dar continuidade na conversa falida, na esperança de que eu fosse desenvolver um diálogo de verdade.
E assim, meio à francesa, fui saindo da varanda, como quem simplesmente terminou de estender as roupas. Dez minutos depois eu a vi no portão conversando com a tal da vizinha de baixo.
Vizinhos são o karma da classe média baixa ascendendo pra sociedade.
Como diria o velho mal-humorado, é infernal.